Por que os investidores entram em pânico?

Por Francine De Lorenzo

EXAME Atire
a primeira pedra o investidor que não sentiu ao menos um frio na
barriga quando constatou que suas aplicações em ações encolheram quase
20% em apenas uma semana. Mesmo planejando utilizar o dinheiro somente
daqui dez ou 15 anos, provavelmente você chegou a pensar se não seria
melhor voltar para a segurança da renda fixa.

Quando há mais perguntas do que respostas no mercado – e o que está
em jogo é o trabalho de toda uma vida, sonhos, desejos e
responsabilidades – a reação a cada nova notícia é racional ou
emocional? Entender o que se passa na cabeça dos investidores em
momentos de crise é uma tarefa tão complexa quanto compreender a
magnitude da própria crise. Os estudiosos apresentam visões diferentes
sobre o assunto e chegam a ter opiniões contrárias sobre a melhor
maneira de se enfrentar o sobe-e-desce do mercado.

Longe de ser uma ciência exata, a forma como as pessoas lidam com
dinheiro varia muito, mas é possível identificar alguns comportamentos
comuns a um grande número de investidores.  “O ser humano tem a
necessidade de fazer parte de um grupo. Se todos estão tomando
determinada decisão, ele tende a agir da mesma maneira. Ninguém quer
ser o último a sair da bolsa quando o mercado começa a cair”, explica o
estrategista de Investimentos Pessoais do ABN Amro Real Asset
Management, Aquiles Mosca.

Essa é a lógica do famoso “efeito-manada”, que toma conta do mercado
acionário toda vez que surge uma crise. Para Mosca, nesses momentos, o
investidor age de forma inconsciente e, na maioria das vezes, acaba
tomando a decisão errada. “Agora é hora de entrar na bolsa, ir contra o
´efeito-manada`”, diz Mosca. Lógico que para essa estratégia funcionar,
a aplicação deve ser de longo prazo.

O “efeito-manada”, entretanto, não nasce e cresce sozinho. Ele é
alimentado, segundo Mosca, por outro fenômeno, a chamada “saliência”.
Quando um assunto é muito comentado na mídia e se torna saliente em
relação aos demais – daí o nome “saliência” –, ele ganha um significado
muitas vezes superior ao que deveria ter. “Isso aumenta a probabilidade
de que determinado comportamento se repita. Por exemplo, se o Ibovespa
cai fortemente e isso é amplamente comentado, as chances de que ela
volte a desabar são grandes”, afirma Mosca.

A psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, autora do livro
“Psicologia econômica”, aponta outro motivo para o “efeito-manada”: a
falta de conhecimentos dos investidores sobre o funcionamento do
mercado acionário. “Somente os grandes investidores analisam os
fundamentos das empresas. Os pequenos investidores seguem na cola dos
profissionais, mas estão sempre um passo atrás”, avalia.

Além disso, a psicanalista afirma que os investidores sofrem os
efeitos da “ilusão de validade”, termo que define a tendência que as
pessoas têm de dar mais crédito às informações com as quais concorda.
“Se você discorda ou vê pouca probabilidade de que algo aconteça, você
tende a ignorar tal informação”, explica Vera, destacando que os sinais
da atual crise financeira já eram percebidos desde o segundo semestre
do ano passado. “De modo geral, os investidores têm uma autoconfiança
exacerbada. Acham que sua capacidade está acima da média e não têm
consciência de suas limitações”, afirma. Por isso, Vera classifica como
“loucura” os planos que muitos investidores têm de abandonar o trabalho
para viver apenas de operações de home broker. “É ilusão acreditar que é possível superar o mercado”, ressalta.

Os negócios na bolsa acontecem devido à assimetria de informações.
Enquanto uns acreditam que determinadas ações estão baratas, outros
avaliam que os mesmos papéis estão cotados acima de seu real valor – e
é isso que faz com que os investidores comprem e vendam ações. Quando
há uma crise de grandes proporções, como a atual, a tarefa de avaliar o
cenário econômico e os fundamentos das empresas torna-se mais complexa.
“Nesse ponto, não dá para dizer se as decisões dos investidores são
emocionais ou se estão baseadas em alguma informação. Há muitas dúvidas
no mercado. Posso simplesmente decidir ficar fora da bolsa até que a
situação se esclareça”, pondera o professor da Faculdade de Economia e
Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Alexsandro
Broedel Lopes.

O que fazer?

Cada especialista tem uma visão diferente sobre a melhor alternativa
para enfrentar a crise no mercado acionário. Na opinião de Lopes, o
pequeno investidor deve se afastar da bolsa, redirecionando seus
investimentos para a renda fixa.

Já Mosca sugere aos investidores definir um percentual de sua
carteira para aplicação em ações, independentemente de o mercado estar
em alta ou em baixa. Se a bolsa subir, o percentual em ações irá
aumentar automaticamente, obrigando o investidor a vender parte dos
papéis para voltar ao percentual anteriormente estipulado. Já se a
bolsa cair, o investidor deverá reorganizar sua carteira comprando mais
ações, de forma a recompor o percentual perdido. “Assim, o investidor
estará sempre comprando na baixa e vendendo na alta”, explica o
especialista.

Como definir tal percentual? Pelo autoconhecimento. “Não existe
receita de bolo. O valor certo é aquele em que o investidor se sente
confortável”, diz Mosca. Um caminho para descobrir qual é esse valor é
começar aplicando pequenas quantias – 5% da carteira, por exemplo – e
ir aumentando aos poucos.

Uma dica da psicanalista Vera Rita é nunca esquecer a
diversificação. “Quando a bolsa está subindo, pensamos que será sempre
assim e, quando nos damos conta, já estamos com mais da metade da
carteira aplicada em ações. Mesmo que as perspectivas para o mercado
acionário sejam boas, o investidor não deve deixar de diversificar seus
investimentos”, recomenda a especialista. Pois se há uma certeza no
mercado acionário hoje é que não há movimento de bolsa que dure para
sempre.

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