Guia para investir na bolsa

Aprenda em 12 passos como tirar o máximo proveito de suas operações de compra e venda de ações este ano

Por MARTA BARBOSA

Hélio Salema, 28 anos: criou um fundo de investimento junto com os amigos

As
oscilações no preço das ações na Bolsa de Valores de São Paulo
(Bovespa) no ano passado foram um teste de resistência para 17 000
brasileiros que estrearam no mercado acionário. Eles nem bem investiram
pela primeira vez e já se defrontaram com um período de alta
volatilidade. Altos e baixos, aliás, que prometem continuar
movimentando este ano, segundo expectativa de analistas. Alguns
especialistas consideram que esse pode ser um motivo de preocupação,
mas há também quem enxergue boas oportunidades de ganhos nessa fase
exatamente por isso. Para que você se sinta seguro e aproveite o que
2008 reserva de melhor para os investidores, apresentamos a seguir 12
passos para ter sucesso na Bovespa. Eles resumem as recomendações de 25
entendidos no assunto, entre consultores, analistas e aplicadores que
já ficaram ricos.

PASSO 1

Entre no mercado de forma gradual

O
melhor jeito de participar do mercado de ações é começar de maneira
gradual, principalmente este ano em que a expectativa é de altos e
baixos nos pregões. Então, nada de transferir todo o dinheiro que você
tem na poupança ou na renda fixa para ações. Faça operações com
quantias menores. E, à medida que for acertando, aumente o valor da
aplicação. Lembre-se de aproveitar os momentos de baixa dos papéis, que
caíram porque o mercado entrou numa crise, não porque a empresa vai
muito mal nos negócios, e compre a ação, aproveitando um desconto no
preço. Assim, você reduz a sua exposição ao risco.

PASSO 2

Mantenha a disciplina

A
melhor maneira de disciplinar seus investimentos é, sem dúvida,
obedecer a uma periodicidade nas aplicações. Estabeleça um valor que
você possa dispor facilmente todos os meses, mesmo que seja uma quantia
pequena, e adote-a como meta mínima por um período, tipo seis meses, um
ano, dois anos. Em épocas de maior renda, aumente os investimentos, mas
nunca, nunquinha, diminua. Foi com isso na cabeça que o músico carioca
Hélio Salema, de 28 anos, convenceu dois amigos a abrir um clube de
investimento.

Os investidores têm em comum o gosto pela música e
montaram, com a assessoria de uma corretora de São Paulo, uma carteira
de ações enxuta e concentrada. São apenas cinco papéis: Vale
(representa 50% das aplicações), Porto Seguro, Itaú, Sadia e Bovespa.
Hoje, o clube já tem 25 cotistas. Todos seguem o compromisso de fazer
um depósito mensal de, no mínimo, 200 reais. O bom é que sempre
depositamos mais que isso, diz. O clube hoje acumula 115 000 reais de
patrimônio e tem conseguido rentabilidade média de 81% ao ano. Nesse
ritmo, a meta de dobrar os investimentos será alcançada antes de cinco
anos.

PASSO 3

Prefira as empresas com as quais tenha afinidade

Na
hora de montar sua carteira, dê preferência às empresas que você
conhece ou porque é cliente ou porque faz parte do mercado em que
trabalha ou ainda porque tem afinidade com elas. É natural que um
médico saiba analisar com mais propriedade um hospital do que uma
siderúrgica, por exemplo. Assim como um engenheiro naturalmente
acompanha mais as informações do setor de construção civil do que o de
comunicação. Em resumo, fica mais fácil se manter informado se na sua
carteira estiverem empresas que você já acompanha o desempenho,
independentemente de ser acionista.

PASSO 4

Entenda o que é caro

O
papel da Petrobras é tido como caro. No dia 10 de novembro do ano
passado, a ação PN da empresa, a mais negociada na bolsa nessa época,
estava cotada a 79 reais. Caro? Não se você considerar que o preço-alvo
médio, ou seja, quanto o mercado espera valer em um ano, é de 98 reais.
Não há nenhum analista financeiro que não esteja de acordo com as boas
perspectivas da companhia no longo prazo. A Petrobras tem uma magnitude
não apenas em função de suas novas descobertas, mas, principalmente,
pela sua importância estratégica no cenário mundial de alta demanda de
petróleo e escassez de novos poços para explorar, diz Martha Dubugras,
sócia da Paraty Investimentos, do Rio de Janeiro. Ou seja, é caro,
contudo, vai continuar se valorizando. Então, vale a pena.

O
exemplo da Petrobras serve para mostrar que, na bolsa, a lógica do caro
e barato é diferente da que usamos no nosso dia-a-dia. Não dá para
concluir que uma empresa está cara sem antes se debruçar com atenção
nas avaliações a seu respeito, principalmente no preço-alvo traçado
pelos analistas para os próximos 12 meses. Se seu objetivo está lá na
frente, e é bom que os planos do investidor de bolsa estejam sempre no
longo prazo, algumas ações não são tão caras como podem parecer.

PASSO 5

Escolha entre as ações com valorização contínua

O
que conta mais pontos na hora de eleger uma boa ação: valorizações
recordes que ela tenha obtido desde o ano passado ou a rentabilidade
acumulada nos últimos cinco anos? O acumulado, diriam os analistas. Em
mercados voláteis como o brasileiro, é preciso analisar o desempenho de
um papel no longo prazo. A regra, então, é sempre considerar a média de
rentabilidade do maior tempo possível. Não há garantias de que esse
retorno passado ocorra no mesmo nível no futuro. Mas, ao observar o
comportamento da ação ao longo do tempo, pode-se verificar tendências
de preço e, sobretudo, analisar se ela sofre com picos de altas e de
baixas constantemente, o que pode causar aflição a investidores menos
experientes.

PASSO 6

Saiba esperar

Nos
últimos cinco anos, o Ibovespa acumulou alta de 521%. Mas, no ano
passado, como agora, a bolsa viveu ciclos de baixa. Ciclos
concentrados, que não chegam a ser longos, mas suficientes para causar
estrago nas contas de investidores que precisaram sacar os recursos no
curto prazo, durante ou logo depois das crises. Quem agüenta firme e
não mexe na carteira consegue mais do que recuperar a queda, consegue
lucrar, diz Eduardo Roche, gerente de análise da Modal Asset
Management. A velha recomendação de que bolsa é para longo prazo pode
soar repetitiva, porém faz todo sentido. Você até pode ter uma ação,
entre as cinco ou seis de sua carteira, para esperar retorno em um mês
ou seis meses. Mas o recomendável é ter mais papéis que permitam a você
viver como acionista das empresas, ou seja, ganhando dinheiro com a
valorização das ações e o pagamento de dividendos.

PASSO 7

Pondere antes de operar sozinho no homebroker

As
vantagens do homebroker são inúmeras. O investidor faz compras e vendas
no computador de casa e pode acompanhar o mercado de ações em tempo
real. As aplicações se tornaram mais ágeis e seguras. Na mesma
estrutura de compra e venda de papéis, o usuário pode ter acesso a
notícias, gráfi cos e análises sobre as empresas e fundos de
investimentos. Mesmo assim, o primeiro-tenente Holdymar Júnior, de 29
anos, prefere manter a gestão da carteira do clube que coordena com a
corretora de valores. Eu poderia interferir nas alocações, mas, como
não quero essa responsabilidade, nunca sequer sugeri uma mudança na
carteira, diz Holdymar.

A opção do militar não é motivada por
falta de preparo. Antes de investir, ele foi junto com a mulher fazer
um curso sobre mercado de ações, promovido pela Bovespa. Hoje, o casal
mantém um plano arrojado, com 80% do patrimônio investido em ações. Não
temos filhos, somos jovens e acho que esse é o momento de arriscar, diz
Holdymar. Foi por isso que ele se aproximou do Clube de Investimentos
Duque de Caxias, formado apenas por ofi ciais das Forças Armadas. Na
carteira, estão nove empresas: Gerdau, Guararapes (Riachuelo),
Petrobras, Weg, Randon, Plascar, Usiminas, Votorantim Celulose e Taurus.

  Holdymar Júnior, 29 anos: é um investidor que não gosta de opiniar sobre sua carteira

Em
julho do ano passado, Holdymar tomou um susto quando a rentabilidade da
carteira caiu 11,8%. Nem nesta situação ele interferiu na gestão do
clube. Acho que cada profissional tem sua área de atuação, diz. Confio
muito na corretora que escolhi e não me preocupo quando acontecem esses
momentos de baixa. De fato, nos meses seguintes, a carteira recuperou a
queda e subiu 28%. É essa tranqüilidade que faz Holdymar continuar
distante do homebroker.

PASSO 8

Tire proveito do sobe-e-desce

Ninguém
duvida que 2008 será um ano de volatilidade. Antes de se assustar,
saiba tirar proveito da situação. Se houver uma valorização expressiva
de um papel, venda, porque é muito provável que depois de uma forte
alta venha uma queda, diz Marcelo Canguçu de Almeida, diretor da
corretora Concórdia, de São Paulo. Aproveite as baixas para comprar
ações e, nas altas, realize o lucro, de preferência reinvestindo esse
ganho no próxima baixa.

PASSO 9

Saiba diferenciar mudança de tendência e correção de preços

Quando
ouvir a primeira notícia de queda na cotação dos papéis que compõem a
sua carteira, tente analisar se é uma correção de preços ou uma mudança
de tendência. Correção é quando o mercado está inflado, a ação está
supervalorizada e há uma oscilação natural, causada pela realização de
lucro de alguns investidores. Não é motivo para se preocupar. Já uma
mudança de tendência significa que os rumos foram alterados e as
previsões já não são as mesmas para aquela companhia. Aí você deve se
preocupar. Se não se sentir seguro sobre qual das duas mudanças de
preços está influenciando a desvalorização da sua ação, siga o que os
analistas sugerem a respeito daquela ação: acione sua corretora.

Como se calcula o preço de uma ação?

Para
se chegar ao valor de um papel, os analistas utilizam um método
contábil baseado nos aspectos financeiro, econômico e de performance da
empresa. Trata-se de um cálculo do fluxo de caixa futuro da companhia.
Ou seja, o que sobrará no caixa quando descontadas as despesas do
faturamento. Esse número é trazido para os dias de hoje aplicando uma
taxa conhecida como taxa de desconto, que é composta considerando
dívidas contraídas pela companhia e a expectativa de retorno financeiro
dos acionistas. Esse valor os especialistas dividem pelo número de
ações e então chegam ao famoso preço justo, que, no entanto, nem sempre
é o dos pregões. E o motivo é que sobre esse preço justo incidem para o
bem ou para o mal dois indicadores bem difíceis de prever com exatidão:
a volatilidade e a liquidez.

PASSO 10

Não se julgue um profissional

Estima-se
que o investidor pessoa física represente 20% do volume negociado na
Bovespa chegando a 25% em alguns meses. Quem dita o mercado não é o
pequeno aplicador, e sim o investidor institucional, em especial o
estrangeiro, que responde pela maior parte do volume negociado na
bolsa. Por isso, enquanto você é um pequeno aplicador, não tente
competir com os gigantes. Aproxime-se deles para tirar proveito de suas
apostas. Como? Um bom exemplo é o da Bovespa Holding, que abriu capital
no fim do ano passado sob os olhares atentos de investidores
institucionais. A alta demanda de estrangeiros fez as cotações subirem
e os menos de 10% de pequenos investidores que compraram ações no dia
da estréia na bolsa conseguiram ganhar mais de 50% em 24 horas.
Desconfie se achar que você é o único que teve uma grande sacada.
Dificilmente, mas dificilmente mesmo, essa sacada vai resultar em mais
dinheiro.

PASSO 11

Vença as tentações do acúmulo

Os
consultores dizem que o grande teste para quem tem um plano de
investimento é quando se chega à metade dele. Nesse momento, olhar o
saldo é uma tentação. O dentista carioca Olímpio Pinto, de 74 anos,
sabe bem o que é isso. No final dos anos 1970, Olímpio conseguiu quase
quadruplicar o investimento com um único papel, o do Banco do Brasil.
Ele aplicou seu dinheiro em uma ação que, em apenas três anos, passou
de 14 reais para 55 reais.

  Paulo Gil, 42 anos: perdeu dinheiro por não ler as instruções

Ver
seu dinheiro valorizar tanto em plena época de inflação foi tentação
demais para Olímpio, que se desfez da carteira e comprou uma praia em
Angra dos Reis hoje a famosa Praia do Dentista. Mas se eu tivesse
mantido o dinheiro ali mais alguns anos eu seria um homem milionário,
diz. Talvez eu não fosse dono dessa praia que é conhecida
nacionalmente, porém, certamente, teria comprado outras.

PASSO 12

Fique atento ao momento de vender

O
empresário paulistano Paulo Gil, de 42 anos, pensou estar diante de um
grande negócio no ano passado. Ele aproveitou um raro momento de queda
nas cotações da CPFL e comprou, no dia 21 de agosto, os papéis da
companhia por 32 reais. Um mês depois, a ação tinha se valorizado
22,5%. Paulo só esqueceu de uma coisa: não leu o prospecto e não sabia
que em uma semana a empresa estaria distribuindo dividendos. Vendeu com
lucro, mas podia ganhar mais. Não só o papel continuou se valorizando,
como perdi ótimos dividendos.

Lição apreendida, Paulo não cometeu
mais erros assim. Dono de uma carteira diversificada tem ações de 14
empresas de oito setores, ele conseguiu se livrar de um mico. Percebeu
a trajetória de desvalorização da Cosan que em novembro de 2007
acumulava queda de 51% no ano a tempo de recuperar o que perdeu. Paulo
comprou ações da Cosan por 33 reais, em 30 de junho. Dois meses depois,
e com queda acentuada, ele vendeu por 25 reais. O papel continuou
caindo, mas isso já não preocupa o empresário. Paulo usou o dinheiro
para comprar ações da WEG Motores, que acumula alta de 24,5% desde o
dia da compra. Mandou bem! Agora é a sua vez.

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