Muitos Passos em Falso São Dados Ficando-Se Parado

Muitos Passos em Falso São Dados Ficando-Se Parado


Depois que os seres humanos conseguiram ficar eretos e andar sobre duas
pernas, o mundo passou a ser visto de outra forma. No inicio, em sinal de
respeito, os homens  curvavam-se somente para os Deuses, que os
protegiam.  Mais tarde passaram a se curvar também para tiranos, que se
julgando semi-deuses, impunham o  respeito e a veneração pela força.

O tempo foi passando e novas alterações posturais surgiram. Músculos, ossos,
articulações tiveram que se adaptar à evolução do intelecto. Os homens
inventaram a cadeira e então sentaram. Depois veio a roda e passaram a andar
sentados. Confortavelmente em uma poltrona, hoje pode-se voar, conversar via
internet e até mesmo governar. O homem busca constantemente seu bem estar e uma
melhor qualidade de vida.

O habitat humano, sendo essencialmente social,  vai exigir
relacionamentos, que podem variar da completa rigidez à total flexibilidade.
Endurecidos ou flácidos também ficam os músculos, quando reagem à determinadas
exigências sociais. 

Nossos ancestrais foram forçados a se curvar para tiranos anti-éticos. Hoje,
nossa coluna curva-se ao ver desigualdade, corrupção, impunidade, injustiça.
Curva-se mais ainda com resignação, impotência, alienação. O corpo vai
absorvendo as pressões sociais, os músculos vão retraindo e surgem as
escolioses, deformidades, artroses e dores na coluna.

Postura e ética tem tudo a ver. Ética é uma postura de vida que pode moldar a
postura corporal, mas em contra-partida, a postura fisica também  pode
sugerir a visão de mundo de um indivíduo. Rígida em princípios e valores e
flexível na forma de analisar e sentir o outro, a ética pode ser metafóricamente
comparada a um músculo.

Quando um princípio ético é forçado a ser relaxado,  corpo e mente são
afetados e passam a gastar mais energia.  A pele, que é a nossa primeira
roupagem e barreira para o exterior fica tensa, os músculos se contraem  e
a harmonia postural se desequilibra.

Da mesma forma, quando uma relação se torna rigida, seja com o próprio
indivíduo em primeiro plano ou mais adiante com os outros, o sistema imunológico
afrouxa as defesas do organismo, facilitando o surgimento de doenças.

Ética relaxada, músculos contraídos. Relacionamento rígido, imunidade frouxa.
Crônica ou agudamente, ocorre uma transferência de atitudes ou da falta delas
para dentro do  organismo  e a  partir daí,  músculos se
contraem ou relaxam, hormônios são liberados ou reprimidos. Vale lembrar que o
coração também é um músculo. Curvar-se para as exigências sociais, sentir dor,
contrair doenças vale a pena? É válido utilizar, mesmo que inconscientemente o
corpo como escudo ou reflexo do sofrimento da alma?

Um corpo encouraçado, inflexível, sem oxigênio circulante, não deixa o
cérebro pensar,  estabelecendo então um ciclo vicioso. O conforto fisico
também afeta a capacidade de analisar, sentir, julgar e de ser ético.

Cada ser humano é único em seu corpo e forma de pensar e agir. Não existe
corpo nem postura perfeitas. O caminho e o modo de andar são escolhas
individuais, porém muitos passos em falso são dados ficando-se parado.

Artigo escrito com colaboração de Luciana Fioravanti – fisioterapeuta,
morfoanalista

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